Algumas dicas para se fazer uma boa Programação na Rádio Comunitária
As emissoras comerciais adotaram um padrão que visa, unicamente, o lucro dos patrões. O ouvinte não passa de um consumidor; um ser manipulado para consumir produtos, seja um carro do ano, uma geladeira, ou as teses neoliberais. Não existe compromisso com a sociedade, eles querem é vender, mesmo que as vezes tenham que empurrar qualquer buginganga aos ouvintes.
Uma emissora comunitária é feita, primeiro, através do conselho comunitário, formado por representantes da comunidade. Em segundo, pela programação, que deve ser voltada para os interesses da comunidade, e segundo uma ética que sirva para a construção da cidadania e o exercício da democracia.
NÃO ESQUEÇA!
Rádio comunitária não pertence a empresário. Ela pertence à coletividade, a todos da região, e não a uma pessoa em particular. Numa emissora comunitária todos têm direito a voz. Todas as religiões, todas as opções sexuais, todos os empresários, todas as raças, etc.
Rádio comunitária não pertence a nenhuma religião. Se é comunitária não pode ser espírita, católica, evangélica, não se deve utilizar a emissora para fazer proselitismo.
Rádio comunitária não pertence a nenhum partido. Ela tem que abrir espaço para todos os partidos políticos e jamais como algumas pertencer ao prefeito, ao secretario municipal, isso não permitido na Lei de Radcom e o parlamentar corre risco de perder o mandato.
Tipos de programa de rádio: Informativo, Educativo, de entretenimento, Participativo, Cultural, de mobilização Social, etc.
Ainda pode ser: Infantil, Juvenil, Feminino da terceira idade, Rural, Urbano, Sindical, etc.
Seja criativo: Invente. Crie. Ao fazer um programa mescle música com informação, entrevistas, reportagens, efeitos sonoros. Não faça um programa monótono. Comunicação é energia. Valorize cada palavra. Elas devem passar a emoção que carregam.
Conheça seu ouvinte: Qual é o seu público? E gente rica ou pobre? Homens ou mulheres? Em que trabalham? Não esqueça: é o ouvinte quem põe o sentido das coisas, não a mensagem. O ouvinte só escuta o que lhe interessa. Além do mais tem o clima . As pessoas têm sentimentos e eles favorecem ou atrapalham a recepção de mensagens.
Linguagem popular: Não exija dos que fazem rádio comunitária que falem o português ensinado nas escolas. Dona Maria que conhece tudo sobre doces, ou Seu Amaro, um mestre-de-obras de primeira grandeza, conhecem muito bem o seu ofício mas não tiveram a oportunidade de estudar numa escola. Por isso não sabem falar este ‘português correto’. Eles, com certeza, podem ter um programa na rádio, falando do jeito deles. O povo brasileiro é um povo de várias línguas e muitos sotaques. Cada qual, ao seu jeito, deve ter espaço na rádio comunitária. Se a rádio comunitária só abrir espaço para aqueles que sabem falar o “português correto” então não vai ter ninguém para falar. Busque uma linguagem simples. Não complique. Não faça da emissora um espaço para catequese política ou religiosa. Não queira corrigir o modo de falar do povo, O jeito de cada um se exprimir é o jeito da pessoa se comunicar. Não imite o sotaque de fora para se mostrar avançado. Fale como sua gente, a gente da comunidade. Use e abuse do bom humor!
Palavra tem começo, meio e fim: E muito importante saber expressar cada palavra. Cada qual ao seu jeito, na sua língua, no seu sotaque, deve exprimir as palavras. Todos aqueles que vão fazer um programa devem saber disto: as palavras têm começo, meio e fim. Não esqueça de pronunciar a letra final. Sejam palavras conhecidas, como casa e casas, ou regionalistas, como oxente, tchê... Palavra é som. Se falar incompleto ninguém entende.
Não leia o texto: Quando for ler um texto, não leia o texto! Faça com que ele tenha vida, dê energia as palavras escritas. Um texto lido fica um porre, um velório, um discurso monótono.
Não imite jamais as rádios comerciais: As emissoras comerciais têm compromisso com o lucro. Por isso tem seu jeito. Colocar na rádio comunitária uma programação musical ou jornalística igual a de uma rádio comercial é uma agressão à comunidade. Seja criativo, invente, faça uma rádio conforme seu bairro, sua vila, sua cidade, e não igual às outras rádios.
Música boa: O compromisso de uma emissora comunitária é com a comunidade. Identifique na região os artistas, os músicos, e compositores. Toque as músicas de gente da região, da sua cidade, do seu estado, do Brasil. Só toque música de qualidade. Se tocar música internacional, que seja de qualidade. Se o ouvinte pedir a música de sucesso, a que está tocando nas outras rádios ou na televisão, questione, reflita, não faça a emissora comunitária ser igual a comercial. Não esqueça que as outras rádios recebem dinheiro das gravadoras para tocar estas músicas que fazem sucesso. As gravadoras determinam a programação das rádios comerciais e assim o gosto do público, fazendo com que o povo compre aquilo que elas querem. A rádio comunitária não pode se dobrar a isto. Ela tem que estar ligada à cultura da região, ai incluindo o folclore e os artistas locais. E sua obrigação divulgar a cultura local.
Cultura: Divulgar a cultura local é missão da rádio comunitária. Se na sua programação a rádio toca somente música de sucesso ou o que está nas paradas é porque não é rádio comunitária. E importante que a rádio faça de cada programa uma fonte de cultura. Para isso os produtores e apresentadores dos programas devem pesquisar, ler sobre o assunto. Se você é apresentador de um programa, informe-se, aprenda cada vez mais, para que possa transmitir aos seus ouvintes. A rádio comunitária deve ser educativa. Por exemplo, quando tocar música de determinado cantor, diga quem ele é, fale sobre suas obras, a importância do seu trabalho; se for da região, inclua entrevistas,... Dê riqueza ao trabalho, com informações. Do mesmo modo, explique ao povo da região que a rádio comunitária não vai tocar, digamos “dance music’, porque é uma música que já toca nas outras rádios, é um lixo importado, não tem a ver com a realidade local... Dê os motivos. Se não sabe, procure aprender, ouça quem entende do assunto. Informe-se. Não adianta botar uma rádio no ar e não saber o que está fazendo. Não importa o tema, aprenda, leia, estude mais, converse com quem entende Não permita que sua rádio seja pobre culturalmente, como são as rádios comerciais. E importante valorizar a cultura brasileira. As rádios comerciais (e televisões), como já disse, têm compromisso com o dinheiro. Elas não estão preocupadas com o Brasil e muito menos com o povo brasileiro. Por isso tanto faz tocar lixo nacional ou internacional. A emissora comunitária, portanto, tem que defender a música de qualidade e em especial a música brasileira. Se a rádio comunitária não fizer isto quem vai fazer? Divulgar as manifestações folclóricas locais.
Jornalismo comunitário: A comunidade é sempre notícia. Em cada rua está acontecendo alguma coisa, as pessoas são noticias. Mostre o que está acontecendo, alerte para os problemas e apresente propostas de solução do povo. Promova debates, discuta as questões locais e nacionais, sempre colocando gente da comunidade para discutir. Questione as autoridades sobre os problemas locais; chame todos os partidos políticos para que dêem sua opinião sobre os problemas locais ou nacionais; coloque-os em confronto com a comunidade. E não busque imitar os jornalistas das televisões ou rádios comerciais. Faça do seu jeito, Faça Diferente..
Serviço comunitário: Dê espaço na rádio para as reivindicações da comunidade. Divulgue a assembléia na fábrica. Divulgue a oferta de empregos na região, dê os nomes de quem procura emprego. Divulgue o comércio local. Mande avisos, recados, Coloque um boletim sobre cuidados básicos com a saúde, sobre qualidade de vida, alimentação... Não esqueça, a emissora comunitária existe para atender aos interesses do povo.
Entrevistas: Quando for entrevistar alguém não seja arrogante, o sabe tudo. Mesmo que o entrevistado seja um bandido ou um mentiroso, procure mostrar estas mentiras e seu lado mafioso, mas não se mostre o gostosão. Se você entende do assunto deixe que ele se enrede nas suas perguntas e não nas suas opiniões. Seja sutil. Se é um programa de entrevistas e você sabe antecipadamente que o entrevistado andou aprontando, que é um bandido, então estude, prepare-se, e ataque mas usando informações precisas, com base em documentos. Nunca diga: “ - eu ouvi dizer que o senhor andou levando dinheiro”. Em jornalismo não se coloca “ouvi dizer’. Ou você diz qual foi a fonte, ou então fala de outro modo: “ - recebemos informações não-oficiais, ou, por fonte oficial, que não posso revelar o nome, que o senhor teria se apropriado...” Há uma diferença muito grande entre as duas perguntas: no primeiro caso você acusou o entrevistado de ladrão; no segundo, levantou a possibilidade, através de uma denúncia, não confirmada, de que ele poderia ser um ladrão. No primeiro caso, você pode ser processado por calúnia. No segundo, não. Mas ainda assim pode ser ruim, porque o entrevistado pode pedir provas, e se você não tiver perde seu respeito diante dos ouvintes. Em suma, nunca acuse alguém de alguma coisa, sem ter provas. Toda acusação sem provas é uma calúnia, e aí dá processo.
Programas policiais: Nenhuma rádio comunitária pode ter programa policial. Deixe isso para as rádios comerciais que se alimentam da miséria e a desgraça humana. Faça, pelo contrário programas/debates sobre direitos humanos, qualidade de vida.
Temas sociais: É importante que a rádio comunitária aborde questões que dizem respeito à comunidade e ao pais. Promova debates sobre questões como reforma agrária, desemprego, privatização, questão indígena, direitos humanos, educação, aborto, política, saúde, trabalho infantil, sem-teto, exploração sexual de crianças e adolescentes, democratização dos meios de comunicação... Procure sempre colocar os dois lados do tema - aqueles que são contra e aqueles que são favoráveis.